Vida home office

Desabafos de uma (ex) publicitária deslumbrada

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Tentando resolver meu dilema do que colocar no meu novo cartão de visitas e refletindo sobre alguns acontecimentos que presenciei na última semana comecei a pensar sobre a minha trajetória profissional.

Eu escolhi fazer publicidade pelo encantamento por tudo que passava na televisão e os catálogos de moda belíssimos que apareciam na mesa do meu primeiro estágio, aos 17 anos em uma fábrica de jeans. A paixão e empolgação foram ainda mais aguçadas durante todo o período da faculdade e quando – no segundo ano – fui pela primeira vez ao Festival Internacional de Publicidade, vi toda a grandiosidade da propaganda e já comecei a imaginar que precisaria de uma estante especial para a coleção de prêmios que poderia fazer parte da minha carreira.

Com produções, revistas de moda e uma pós em comunicação comecei a imaginar meu futuro em um escritório estilo Diabo Veste Prada, com todo glamour, poder e sucesso que a profissão proporciona. Você pode estar rindo da minha inocência, mas tenho certeza que também já teve esse tipo de deslumbramento. Somos a geração do futuro, que pode ser o que quiser, então pensar ter uma estante cheia de prêmios ou um escritório chiquérrimo na redação de uma revista famosa são coisas completamente possíveis. Só depende de você!

Acredito que “Você pode ser o que quiser” e “só depende de você” usadas em uma mesma frase ainda serão a causa da morte do espírito de muitos jovens dessa tal geração Y, na qual faço parte. Não que você não possa fazer qualquer coisa ou ser quem quiser, mas esse “ser” e “fazer” podem não ser exatamente coisas que realmente você quer e sim, reflexos de frustrações e expectativas de outras pessoas projetadas em você.

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Sabe como eu percebi isso? Não posso reclamar da minha trajetória e que meus “sonhos ambiciosos” até me levaram bem longe. Trabalhei em lugares legais, realizei projetos com marcas bacanas, morei fora, voltei, fiz curso fora do país e viajei bastante. Obtive reconhecimento pelo meu trabalho e fiquei satisfeita com o retorno que tive.  Quando a gente sobe muito, a responsabilidade e o stress sobem no mesmo nível. Então a ansiedade bateu, o cabelo caiu, o peso aumentou, o sono sumiu, o choro se tornou frequente e eu fui tomada por um vazio sem explicação.

Era difícil assumir na terapia que a coisa que eu mais amava e que tinha dedicado grande parte da minha vida estava me destruindo. Todo aquele desejo de sucesso e escritório chique não fazia mais sentido, mas se meu foco foi este a vida toda, o que eu iria fazer agora?

Como eu sempre gostei muito de escrever e estava parecendo muito trabalho nesta área decidi voltar para a faculdade e fazer jornalismo. Em uma faculdade diferente, com uma abordagem diferente e com uma cabeça diferente, as coisas começaram a fazer mais sentido. Vi que o meu trabalho poderia ser algo que soma alguma coisa e não algo que ganha prêmio. Fui apresentada a estudos humanísticos e entendi melhor meu feminismo. Como estava desgostosa com a ideia do glamour, comecei mais realista e não esperava chegar à bancada de nenhum jornal, só aprender mais algumas técnicas para melhorar meu trabalho. Pra falar bem claramente: Tirei o foco do meu umbigo e comecei a olhar para o mundo.

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Dei adeus ao Diabo Veste Prada (apesar de adorar o filme) e ao Mad Men. Me libertei da ideia da sala chique, da caminhada matadora pelo corredor do escritório, da importância do status de chefe, coordenadora e afins, e principalmente, do desgastante cabo de aço que é a relação de poder dentro do meio corporativo. Descobri a maravilha, mesmo com todas as dificuldades, do trabalho home office onde você consegue ser você 100% do tempo. Hoje não tenho mais estagiários e analistas sob minha responsabilidade, tenho amigos de profissão e parceiros que se reúnem em cafés para discutir os projetos que estamos realizando juntos.

Meu cabelo parou de cair, eu parei de chorar, consigo fazer minha ioga todos os dias de manhã e quando o dia pesa tiro 15 minutinhos para brincar com as minhas pestinhas ou assistir alguma coisinha na TV.

Toda essa mudança não me tornou uma pessoa sem proposito ou sem ambição, mas hoje sou uma profissional que busca fazer seu trabalho com carinho e da melhor forma que é possível fazer. Como eu sempre fiz, mas sendo exatamente quem eu sou e guiada pelas coisas que eu acredito.

O maior erro das agencias de publicidade é definir a pessoa pelo cargo que ela ocupa e não por quem ela é. Nenhum profissional é igual ao outro, então você não pode definir que todos os planners são iguais e capazes de trabalhar com qualquer conta. É esse comportamento que acaba com a sua identidade e te transforma em algo que eles querem que você seja e não quem realmente é.

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Quando você abandona a grandiosidade do mundo publicitário pode acabar trabalhando em um espaço bem pequenininho da sua casa. Atendendo clientes menores e executando algumas funções que não estava acostumado, como financeiro e administrativo, mas se faz bem para você e é um trabalho que vai te fazer feliz de verdade, não tenha medo de tentar! Decore do seu jeitinho, invista em uma mesa e cadeira confortável e deixe a criatividade rolar.

Se eu fosse a Jóyce que o mercado diz que “pode ser o que quiser”, seria publicitária, jornalista, redatora ou produtora e assim estaria meu cartão de visitas. Mas sendo a Jóyce que realmente eu quero ser, sou só uma profissional de comunicação que ama escrever, tem uma paixão especial por moda, se realizou dando aulas e tem lá um pouco de experiência para falar algumas coisas. Fico feliz quando alguém fala que vai me contratar porque esse trabalho é a minha cara ou porque gosta do jeito que eu escrevo. É o reconhecimento da profissional Jóyce e não apenas de uma profissional redatora.

Pela primeira vez na minha vida, estou começando a entender em sou eu nesse mundão – como aquele bonequinho do Street View que você coloca em algum lugar do mapa – e o que eu quero para essa parte tão importante da minha vida que é o meu trabalho.

Espero que esse textão ajude quem anda confuso e sem muitas perspectivas, como eu já estive um dia. Nosso mercado é difícil porque tem uma mistura perigosa de vaidade, criatividade e fantasia. Mesmo fazendo parte dos bastidores é impossível não se deixar levar esse mundo mágico.

PS: Ainda não defini o que colocar no cartão de visitas e aceito sugestões <3

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