Feminismo

#semanadasmulheres Jenny Beavan: Um novo dress code para o Oscar

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Já que amanhã é o Dia Internacional da Mulher vamos aproveitar para fazer aqui no blog uma #semanadasmulheres com conteúdos, temas e personalidades que nos inspiram a comemorar esse dia como se deve: Se empoderando!

O Oscar já foi há uma semana. Eu já me recuperei de toda a comemoração com a estatueta do Leozinho e a internet já se reinventou depois de perder seu principal meme quando se fala em premiação, mas mesmo com a terra voltando ao seu movimento normal, uma polêmica continua indignando pessoas e gerando muitas discussões: A roupa da figurinista Jenny Beavan.

Vamos falar um pouco sobre ela! Jenny Beavan é uma designer inglesa que tem seu trabalho muito bem reconhecido pela indústria cinematográfica e já foi indicada 10 vezes ao Oscar de Melhor Figurino, incluindo os filmes Razão e Sensibilidade, O Discurso do Rei, e Mad Max: Estrada da Fúria, que lhe rendeu o prêmio.

Eu já trabalhei um bom tempo da minha vida como produtora e quem também já trabalho sabe da importância que isso tem no resultado final das fotos ou do vídeo, mas normalmente é um trabalho que fica lá nos bastidores, aparecendo apenas na ficha técnica e nos sites especializados.

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Jenny já é reconhecida como um excelente figurinista há tempos, mas só tornou-se conhecida para o mundo quando percorreu o corredor do Dolby Theatre – para buscar a estatueta de melhor figurino por Mad Max – sem maquiagem, cabelo natural, jaqueta de couro, calça preta e botas. Quem acompanhou a premiação ao vivo pode ver os olhares de estranheza quando ela caminhava até o palco e logo que a imagem dela começou aparecer na TV o Twitter foi bombardeado por mensagens nem um pouco agradáveis sobre a escolha de seu figurino.

Ela pareceu não dar a mínima para todos no teatro e quando questionada sobre o look escolhido para o evento, Jenny disse:

“Eu não uso vestidos e saltos. Eu simplesmente não posso, tenho problemas nas costas. Eu ficaria ridícula em um vestido e isso foi uma homenagem para Mad Max. Estou me sentindo confortável e, até onde percebo, estou realmente arrumada!”

Podia terminar esse texto aqui, com esta frase. Aliás, esse é o tipo de post que não deveria nem existir.

Agora, vamos pensar um pouquinho!

Dress code é um código de vestimenta que orienta as pessoas como se vestir em lugares e eventos. OK!

O dress code do Oscar é Black Tie, ou seja, são eventos sofisticados que sugerem as mulheres comprimentos longos e produções elaboradas. OK!

Então uma mulher – que não pode usar salto e se sente completamente desconfortável de vestido – precisa se submeter a essas regras para estar presente em um evento onde seu talento profissional é reconhecido. NÃO!

Sabe por que isso incomoda tanto?  O cinema ainda é machista! Desde o início da história do cinema a mulher cumpre um papel de “objeto a ser admirado” que começa na criação dos roteiros e se estende até as premiações. Lindas mulheres de braços dados a homens elegantes, quase como um acessório extra e essa cultura vem sendo reproduzida até hoje. Fomos criadas em uma cultura de “divas” bem longe das mulheres reais. Por que ninguém discute sobre os looks masculinos?

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A premiação de melhor atriz existe deste a primeira cerimônia do Oscar, em 1929, mas quando uma mulher ganhou a estatueta por qualquer outra categoria? Kathryn Bigelow foi a primeira mulher a ganhar o Oscar de melhor direção, com o filme Guerra ao Terro, e isso aconteceu só em 2010!

A mulher como um objeto perfeito, belo, sexy e feminino que aparece nas telas de cinema e red carpets existe há muito tempo, mas e as mulheres que trabalham muito nos bastidores coordenando equipes gigantescas, vivendo em tensão total 24h horas por dia e vestindo, provavelmente, uma roupa bem confortável para aquentar toda a maratona. Como ficam essas mulheres? Elas precisam se transformar na Cinderela e ser algo que não querem só para ter o seu trabalho reconhecido?

Qualquer uma pode encontrar uma fada madrinha que lhe dê um vestido lindo e um par de sapatos de cristal para encantar o príncipe, mas nem todas terão tudo que é necessário para um dia governar como uma verdadeira rainha.

Quer saber um pouco mais sobre o look da Jenny? A jaqueta de couro comprada na Marks & Spencer – uma famosa loja de departamento do Reino Unido – foi bordada com cristais Swarowski (olha o luxo aí) com o símbolo do Mad Max e a gola tinha um bottom com a frase “Fake not Leather” avisando que para ser fabricada, não foi necessário o sofrimento de nenhum animal. Tão lindo quanto qualquer vestido.

Não estou aqui criticando a beleza do red carpet e das divas do cinema, ou afirmando que elas não são ótimas profissionais. Eu as amo e tenho muito orgulho delas! Mas o mundo precisa entender que existe muito mais além do padrão que decidiu ser o seu umbigo. Beleza é algo relativo e precisamos entender as variantes. Assim como qualquer outra mulher que pisou no red carpet do Oscar 2016, Jenny se produziu e escolheu sua melhor roupa, pode não ter sido o que você esperava, mas era o look que ela escolheu para quem sabe subir ao palco para receber o prêmio de melhor figurino. E subiu!

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Cate Blanchett e Jenny Beavan

Acredito que o que mais doeu em todas as pessoas que criticaram a Jenny, foi ver uma figurinista sem vestido grifado, beleza impecável e todo o glamour que imaginam que existam na indústria. Fica claro como o mundo dos supérfluos nivela qualquer pessoa pela sua aparência sem ter o menor interesse em entender quem é ou qual é a história daquela pessoa. Talvez muitas das mulheres que participam da premiação porque tem o seu trabalho reconhecido pela academia, goste muito mais do seu jeans velho e de seu tênis confortável, mas se submeteram ao dress code porque acham necessário. Jenny foi a primeira a dizer não e respeitar quem ela é.

Provavelmente, porque nem um Oscar vale mais que a dor nas costas no dia seguinte, por causa do salto.

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